22. sept., 2020

O cinismo do Ocidente

"Se, por exemplo, aceita-se o postulado de que a calamidade de nosso tempo é a "barbaridade do mundo muçulmano", a observação do Iraque só poderia reforçar esta impressão. Um tirano sanguinário que reinou pelo terror durante um terço de século, que sangrou seu povo, que esbanjou dinheiro do petróleo em despesas militares e suntuárias, que invadiu seus vizinhos, que desafiou os poderes, que multiplicou os aplausos admiráveis das multidões árabes, antes de desabar sem nenhuma luta real; então, assim que o homem caiu, o país afundou no caos, e as diferentes comunidades começaram a se massacrar, como que para dizer isto: Vejam, foi preciso uma ditadura para manter um povo assim!

Se, por outro lado, adota-se como axioma o "cinismo do Ocidente", os eventos podem ser explicados com a mesma coerência: Primeiro, um embargo, que custou a vida de centenas de milhares de crianças, sem nunca privar o ditador de seus charutos, depois uma invasão, decidida sob falsos pretextos, desafiando a opinião pública e as instituições internacionais, e motivada, pelo menos em parte, pelo desejo de de deitar as mãos aos recursos petrolíferos; da vitória americana, uma dissolução precipitada e arbitrária do exército iraquiano e do aparato estatal, e o estabelecimento explícito do comunitarismo no coração das instituições, como se se tivesse deliberadamente optado por mergulhar o país na instabilidade permanente; como bônus, os abusos na prisão de Abu-Ghraib, a tortura sistêmica, a humilhação incessante, os "danos colaterais", os inúmeros erros impunes, os saques, a má administração...

Para alguns, o caso do Iraque demonstra que o mundo muçulmano é impermeável à democracia; para outros, ele revela a verdadeira face da "democratização" ao estilo ocidental. Mesmo na morte filmada de Saddam Hussein, podia-se ver a ferocidade tanto de americanos como de árabes. Para mim, ambos os discursos estão certos, e ambos estão errados. Cada um de nós está girando em sua própria órbita, diante de um público que entende meia palavra dela e não ouve o discurso do outro lado.

(Tradução livre do idioma francês)
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Le dérèglement du monde, p. 30, Amin Maalouf, 2009