21. janv., 2021

O flagelo do nacionalismo

"Toda sociedade, etnia ou grupo religioso tem certos mitos, muitas vezes centrados no próprio nascimento da nação ou movimento em questão. Estes mitos não são vistos sob a superfície, esperando o momento de surgir em uma crise para definir e ampliar seus membros ou seguidores. Em tempos de paz, os mitos nacionais são essencialmente benignos. Eles são alimentados pela indústria do entretenimento, por lições escolares, por histórias pseudo-históricas e baladas, por pregações em mesquitas, ou por aqueles dramas históricos absurdos que sempre ganham popularidade em tempos de guerra. Em tempos normais, eles não impedem os estudos históricos sérios, ou mesmo uma certa tolerância em relação aos outros. Mas assim que uma guerra irrompe, os mitos nacionais provocam amnésia coletiva. Eles dão às gerações passadas uma grandeza e nobreza que nunca possuíram. Quase todos os grupos, muito menos as nações, têm este tipo de mito. É o tipo de madeira que os nacionalistas usam para acender o fogo de um conflito. (…)

Arqueologia, folclore, a busca do que é definido como autêntico, são as ferramentas que os nacionalistas usam para atacar os outros e promover a si mesmos. Eles podem vestir estas coisas como história, mas na verdade são mitos. Enquanto isso, investigações históricas genuínas, quando não destruídas, são corrompidas e atacadas. Os fatos tornam-se tão intercambiáveis quanto as opiniões. Os fatos inconvenientes são rejeitados ou negados. Intoxicadas pelo novo orgulho nacional e pela perspectiva emocionante da guerra, as inconsistências gritantes são disfarçadas. (…)

Os intelectuais e outros críticos da sociedade são tão vulneráveis quanto as massas ao flagelo do nacionalismo. Muitas vezes eles acham isso um remédio para seus sentimentos de ostracismo. Através da causa nacionalista, eles podem se ver exaltados por uma nação que antes os tinha ignorado. Eles também gostam de intoxicação. Em tempos de crise nacional, sempre haverá intelectuais prontos para se alinhar atrás dos líderes que outrora afirmaram desprezar, desprezando as posturas morais adotadas nos limites dos salões de conferência em tempos de paz. Estes intelectuais entusiastas podem se tornar perigosos em tempo de paz. Muitos deles abrigam certezas messiânicas e absolutistas que nunca tiveram que colocar em prática. Todos os movimentos nacionalistas têm este tipo de mentor pernicioso, pronto para justificar o uso da força a serviço de um sonho utópico e irrealista. (…)

Aqueles que abraçam plenamente o mito nacionalista, têm suas vidas transformadas. A autocelebração coletiva permite que as pessoas abandonem sua obsessão habitual com as preocupações triviais da vida cotidiana. O desejo de se ver como atores em um grande drama histórico pode levá-los a abandonar até mesmo a preocupação com suas próprias vidas. Aceita-se esta visão mesmo quando ela significa destruir-se a si mesmo. Em tempo de guerra, a vida se torna um teatro. Todos se tornam atores. Os líderes se destacam contra um belo pano de fundo militar, em poses nobres e heróicas.
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Traduzido do francês : La guerre est une froce qui nous octroie du sens, p. 71. Chris Hedges, 2002